ABG - Associação Brasileira de Genitoscopia

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Associação Brasileira de Genitoscopia

Boletim Eletrônico

Maio 2010 – 29ª edição

Edição especial padronização de terminologia em PTGIC

Nota sobre EZT e CAF

Quando uma paciente diz que foi submetida à CAF, você sabe o que foi realizado? O que é CAF?

 O termo CAF (Cirurgia de Alta Frequência) foi introduzido no Brasil por Gerson Bottacini das Dores em 19941, como sinonímia de Large Loop Excision of the Transformation Zone2 ou Loop Electrosurgical Excision Procedure3. O termo, de fácil lembrança e com significado relacionado à tecnologia empregada para o tratamento excisional ambulatorial das lesões pré-invasivas cervicais teve rápida assimilação e popularização entre os profissionais que atuam na linha de cuidado para a prevenção do câncer do colo do útero. Todavia, a eletrocirurgia de alta frequência  disseminou-se e, desde sua introdução, vem sendo empregado também para biópsias de maior ou menor tamanho e, mais recentemente, com a introdução da conização eletrocirúrgica, o termo CAF vem perdendo seu significado inicial, passando a representar qualquer procedimento, diagnóstico ou terapêutico, realizado com essa tecnologia.

 

A consequência é a incerteza mencionada no questionamento inicial, o que inclui o fato de, ao se deparar com uma paciente que traz história de ter realizado uma CAF, não sabermos se já foi tratada. A análise do laudo histopatológico muitas vezes também não ajuda, pois os espécimes resultantes têm tamanhos e formas variados e são descritos pelos patologistas de forma não padronizada, como por exemplo, fragmento, segmento, cone, mini-cone, dentre outros.

 

Em virtude dessa dificuldade de entendimento, muitos serviços que prestam atendimento a pacientes do SUS registram como CAF biópsias realizadas com equipamento de eletrocirurgia de alta frequência e denominam como cone procedimentos de exérese da zona de transformação, que, segundo as recomendações brasileiras, deve ser realizada em ambulatorio4.

 

Isto traz duas importantes consequências que, infelizmente, são negativas. A primeira: o valor pago pelo SUS por uma CAF é muito superior ao pago para biópsia e, da mesma forma, o pagamento por conização é muito superior àquele para uma CAF. Isto pode resultar em superfaturamento do atendimento e não há como o gestor da saúde distinguir entre o que foi classificado erroneamente em decorrência da dificuldade de entendimento do que foi cobrado com interesse em auferir maior receita. A segunda: os gestores do Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo do Útero, ao buscarem monitorar os procedimentos diagnósticos e terapêuticos através dos sistemas de informação existentes, não tem certeza do real procedimento que foi realizado.

 

De fato, ao analisar os registrados do SIA, observa-se que a maioria dos tratamentos das lesões pré-invasivas é feita por conização, ao invés de, como seria de se esperar, pela exérese da zona de transformação.

Ressalte-se que um dos pressupostos para um programa de rastreio de mulheres assintomáticas é o monitoramento das ações, o que fica, assim, comprometido.

 

Pelos motivos expostos, a Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica (DARAO) do Instituto Nacional de Câncer (INCA) resolveu propor que a denominação para os procedimentos diagnósticos e terapêuticos no colo uterino tivessem denominação consoante com o procedimento realizado, o que se concretizou com a publicação de uma portaria do Ministério da Saúde5. A denominação agora considerada e suas respectivas descrições encontram-se a seguir transcritas6:

 

Conização: “consiste na remoção da zona de transformação e parte variável do canal cervical. Pode ser a frio (com bisturi comum) ou eletrocirúrgica (com bisturi de alta frequência e eletrodos de formato variável). Recomendada para diagnóstico e tratamento de lesões pré-invasivas suspeitadas por citologia prévia ou diagnosticada por biópsia prévia quando não se pode afastar doença endocervical, quando a junção escamocolunar estiver localizada além de 1 (um) cm do orifício externo (zona de transformação ecto e endocervical – ZT tipo II além de 1 cm) ou quando a zona de transformação é predominantemente endocervical (ZT tipo III).

Modalidade: hospitalar ou hospital-dia.”

 

Biópsia do colo uterino: “consiste na retirada de fragmento(s) de área alterada do colo do útero, ao exame clínico, com ou sem colposcopia, para exame histopatológico.

Modalidade: ambulatorial, hospitalar ou hospital-dia.”

 

Exérese da zona de transformação do colo uterino: “consiste na retirada da zona de transformação, por meio da cirurgia de alta frequência. Possui objetivo terapêutico, sendo realizado a nível ambulatorial, sob anestesia local e visão colposcópica. Recomendada para o tratamento de lesões pré-invasivas diagnosticadas por biópsia prévia ou como parte do método Ver e Tratar, quando a zona de transformação está completamente visível e situada na ectocérvice (ZT tipo I) ou quando a junção escamocolunar estiver localizada até 1 cm do orifício externo do colo do útero (zona de transformação ecto e endocervical – ZT tipo II até 1cm).

Modalidade: ambulatorial.”

 

A mesma Portaria estabelece, ainda, em seu Art. 6º “que a utilização e a autorização dos procedimentos ... sejam feitas conforme os critérios do Programa Nacional de Controle do Colo do Útero e de Câncer e de Mama e os seus consensos técnicos e operacionais documentados e divulgados sob a coordenação do Instituto Nacional de Câncer, do Ministério da Saúde”.

 

Com esta nota, gostaríamos de disseminar esta informação e consolidar o uso adequado destes termos.

 

Fábio Russomano

Olímpio Ferreira de Almeida Neto

Gerson Bottacini das Dores

Maria Beatriz Kneipp Dias

Ana Maria Ramalho Ortigão Farias

Paula Ribeiro de Miranda Maldonado

 

Referência: 1.Dores, GB, 1994. HPV na Genitália Feminina. Manual e Guia Prático de Cirurgia de Alta Frequência.  Multigraf Editora Ltda, São Paulo.2. Prendiville W, Davies R, Berry PJ, 1986. A low voltage diathermy loop for taking cervical biopsies: a qualitative comparison with punch biopsy forceps. Br J Obstet Gynecol 93:773-6. 3. Wright, TC, Richart, RM & Ferenczy, A, 1992. Electrosurgery for HPV-Related Diseases of The Lower Genital Tract. A Practical Handbook for Diagnosis and Treatment by Loop Electrosurgical Excision and Fulguration Procedures. Arthur Vision, Inc & BioVision, Inc. New York/Quebec. 4.MS/INCA, 2006. Nomenclatura Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas - Recomendações para profissionais de saúde. Revista Brasileira de Cancerologia 2006; 52(3): 213-236. 5.Portaria GM 2918, de 13 de novembro de 2007, do Ministério da Saúde. 6.http://sigtap.datasus.gov.br/tabela-unificada/app/sec/procedimento/exibir/0409060038/05/2010.

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